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Desencarnar - Segunda Parte

Estelinha quinta-feira, 21 de julho de 2011 , ,

A primeira parte está aqui Desencarnar

"Se você fizer isso agora ela vai virar um monstro. Ela vai viver, mas não acho que vá sobreviver".

Sophia relaxou os braços e deixou as mãos penderem dos lados do corpo, as lágrimas de sangue eram escuras e ainda estavam úmidas. Longos riscos desciam pelas bochechas até o pescoço.

"Que escolha eu tenho...?" ela olhou uma última vez para ele e entrou no pequeno banheiro que havia dentro do quarto.

Enquanto lavava o rosto, ele apareceu atrás dela na porta.

"Você..." ele deixou sair um longo suspiro "Você pode esperar até ela morrer... E então transformá-la" ele completou, observando-a dirigir um olhar desconcertado para ele através do espelho.

"Como exatamente eu posso explicar isso aos médicos? " ela se virou pra ele, enxugando o rosto com uma toalha.

"Não explique. Levamos ela pra casa e esperamos a hora certa. Ninguém vai desconfiar. Ela está estável, não acham que ela vai morrer, mas logo mais ela vai começar a enfraquecer ".

"E se não for como você está imaginando que é? E se eu não conseguir transformá-la? " Não era como se ela o acusasse, mas era mais que natural que ela não quisesse deixar a vida de sua filha nas mãos de um 'estranho'.

"Isso é tudo que eu sei. É tudo que eu posso fazer por você" ele pegou a toalha da mão dela e limpou uma mancha restante no pescoço dela.

"Mãe?" Helena estava fraca, e também sua voz quando chamou por Sophia.

Ela saiu do banheiro em direção a cama "Ei, pequena, como você tá?"

"Eu tô esquisita... Tem um negócio quente atrás da minha cabeça " no momento que Helena falou, Sophia olhou para Ralf e ele se aproximou. Ele colocou sua mão atrás da cabeça dela.

"Ela tá muito quente. Tá enfraquecendo... Se você vai fazer, tem que ser agora" ele alcançou a mão de Helena e segurou entre as suas. "Você vai ficar legal... Descansa... "

Helena fechou os olhos e Sophia saiu em seguida.

Ela encontrou o médico que estava observando Helena mais cedo e não teve problemas em convencê-lo que ela sabia o que estava fazendo. Ela assinou os papéis e saiu.

O médico ficou parado por um tempo, pensando por que tinha mantido Helena no hospital todo esse tempo se ela parecia tão bem essa manhã.

Sophia voltou ao quarto, Ralf já tinha desconectado o equipamento de monitoração e esperava por Sophia, ainda segurando a mão de Helena.

"Tudo pronto, vamos " ela disse, se aproximando da cama. Quando fez menção de carregar Helena, Ralf interrompeu. "Você carregou ela por ai um monte hoje, agora é minha vez ".

Ele não fez muito esforço para pegar a garota e carregá-la nos braços.

"Eu dirijo "ele disse quando chegaram ao estacionamento "entre no banco de trás pra eu colocar ela no seu colo ".

Sophia fez como lhe foi dito. Ela se sentiu aliviada de tê-lo por perto, apesar das diferenças, ela gostava dele, e se sentia segura em confiar nele agora.


"Por que isso tá acontecendo?" Sophia perguntou após longos minutos de silêncio entre eles.

"O corpo dela não está preparado pra esse tipo de readaptação. Ela é muito frágil pra aguentar. É raro encontrar tanto um metamorfo quanto um lobisomem que tenha sido amaldiçoado antes dos vinte e tenha sobrevivido ".

Ele olhou para ela pelo retrovisor.

"Ela vai sofrer, não vai?"

"Eu acho que sim... Isso... Nunca para de machucar, pra falar a verdade. Depois que a mutação começar... Vai doer até ela morrer. E ai ela vai voltar a forma humana... Não acho que vai ser legal".

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Desencarnar

Estelinha domingo, 26 de junho de 2011 , ,
"Ela não vai sobreviver, Sophia" Ralf disse, entrando no quarto do hospital e fechando a porta atrás de si.

Sophia virou seu rosto pra ele, mas ele não a reconheceu. Era um rosto derrotado, cansado, e agora transtornado em raiva e dor.

"O quê? Do que você tá falando?" Ela sussurrou entre dentes enquanto levantava da cadeira em que esteve pela maior parte do tempo nos últimos três dias.

Sem saber, Ralf só estava adicionando combustível à mistura já explosiva em que Sophia estava imersa, havia três dias que não descansava, se alimentava ou pensava em outra coisa que não a recuperação da filha.

Quem ele pensa que é pra dizer isso? Sentenciar assim, que ela não vai sobreviver? O sangue de Sophia estava fervendo, em compensação aos dias frios e de  apatia passados sentada na cadeira do hospital.

Ela podia socar Ralf até não sobrar mais nada dele. Ela queria, e ela deixou transparecer, os pulsos cerrados, os dentes trincados e os olhos fixos nele como o predador que ela era.

"Calma, Sophia. Eu quero ajudar. Eu descobri o que atacou ela." ele deixou o ar sair devagar ao passo que Sophia relaxou minimamente os músculos tensionados, o olhar  e os punhos. Ele continuou "Um metamorfo caça naquela região em que eu achei ela..."

Sophia nada disse por um minuto ou mais. Ela só ficou olhando para Ralf, ou na direção dele, seu olhar estava perdido em outro lugar e sua cabeça estava imersa em outros milhares de pensamentos.

"E o que eu posso fazer?" ela disse finalmente, a voz fraca e falha, seguida de um suspiro pesado.

"Não sei. Só sei que ela não vai sobreviver por muito tempo...." a face dele também estava derrotada. Ele tinha um grande afeto pela garota e por Sophia... E tudo que podia fazer por ambas era avisar a mãe que a filha ia morrer.

"Não tem nada que você pode fazer? Você é... Por que ela morreria?" Sophia não sabia o que pensar. Por um lado ela acreditava em Ralf, mas por outro ela não entendia o  porquê da filha morrer.

"Eu... " Ralf olhou pelo vidro da porta e sussurrou "eu sou um lobisomem. É diferente. Eu até poderia passar pra ela... Mas ela ia morrer mesmo assim".

Sophia ficou em silêncio mais uma vez, os olhos fixos em Ralf por longos segundos. Então algo dentro dela deu um clique e ela percebeu.

"Eu vou ter que transformar ela, não é?"
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Abstrações...

Estelinha sexta-feira, 17 de junho de 2011
Eu não sei o que são esses pesadelos...

Talvez algo enterrado no meu subconsciente? O medo de ser pega, descoberta.

É plausível.

Pareço egoísta. Digo, no sonho... Eu fujo pelas ruas desertas, sozinha.

Como se isso só afetasse a mim. Como se atingisse só a mim, como se minhas preocupações fossem somente com o meu bem estar... Quem dera.

Me preocupo com razão. Parece que foi ontem que tive esse sonho uma das primeiras vezes.

Parece que foi ontem que acordei de um pesadelo dentro de outro, ao ver minha irmã, minha única família além de Helena, lutar com um inimigo invisível e indestrutível, tomando sua vida aos goles.

Ainda me assombra... O corpo caído no chão, o tapete encharcado de sangue escuro e fresco, um arrepio e um medo que pareciam não acabar mais.

Não sei se o que fiz foi salvar ou condenar...
Só sei que nisso sim fui egoísta, não podia deixar que ela fosse embora pela simples incapacidade de suportar a perda.
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Uma carta para mim

Estelinha domingo, 5 de junho de 2011
São Paulo, 12 de junho de 2009

Por onde começar...

Eu sinto muito sua falta.
Acho que quando você me deixou ficou um vazio, sabe? Aquela coisa meio clichê, mas é a única forma de descrever. É engraçado, porque já faz tanto tempo, e parece que o vazio não diminuiu nada, talvez até tenha aumentado.

Queria que as coisas tivessem sido diferentes. Sei que eu já disse isso mil vezes, mas não superei. Nem sei se vou superar, mas não me importo com isso.

Ainda me sinto culpada por tudo... Acho que a culpa é mesmo minha, mas não há mais nada pra fazer agora...

Hellena completou 13 anos, não sei se você sabe... Ela é linda.
Parece tanto com você... Se não fosse ela, eu não sei o que seria de mim.

Provavelmente eu estaria mais perto de você do que agora, mas acho que é melhor estar longe.

A Julia diz que eu sou louca. Ela não disse com essas palavras, mas você conhece a peça, e sabe o que ela pensaria sobre eu te escrever essa carta.

Imagina só, ela está namorando... Ele é um cara bacana, parece gente boa. Acho que ela é que não é muito honesta com ele... Mas chega uma hora que ou você faz a coisa, ou você some, antes que alguém se machuque.

Acho que aprendemos isso na prática, não foi? Na marra...

Acho que, embora a Julia diga coisas fora de hora ou coisas sem propósito de vez em quando, ela estava bem certa em duas coisas que me disse.

Uma é que eu sou uma covarde. A outra é que o que estou fazendo não tem cabimento.

Não tem mesmo. E eu sou covarde. Meu tempo já passou, mas eu não tenho coragem de me levantar e sair.

Acho que tudo que eu tinha pra te dizer foi dito enquanto estávamos frente a frente. 

Então, por aqui vou me despedindo. Para sempre. 

A vida continua. Sei que você pensa como eu.

Não sei se vou amar alguém como amei você, mas não quero mais ficar presa ao passado.

Preciso viver.

Sophia.


Sophia largou a caneta sobre a mesa e encostou-se ao espaldar da cadeira. Sentia um desconforto imenso, não sabia se interno ou externo.
Ficou olhando o papel por uns bons minutos, leu e releu. Não parecia errado, mas era tão estranho fazer aquilo.
Pegou um envelope na gaveta da mesa e escreveu OLIVER no verso. Dobrou o papel com cuidado e enfiou lá dentro.
Estava feito. Ela sabia que ele podia muito bem estar lendo, ou até já ter lido aquela carta. Um lampejo de arrependimento passou por sua cabeça e desceu às mãos, que quiseram amassar a carta, mas foram paradas por algo que não era bom senso.
Levou a carta ao seu quarto. Havia uma dezena de lugares em que poderia guardar a carta, mas nenhum onde poderia escondê-la de si mesma. Rodou até descobrir que queria mesmo era amassar, queimar, rasgar. 
E foi o que fez, amassou, rasgou e depois queimou a carta.
Depois dessa, pegou todas as outras que "mandou" e fez o mesmo ritual de amassar, rasgar e queimar.
Estava liberta.
 
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