São Paulo, 12 de junho de 2009
Por onde começar...
Eu sinto muito sua falta.
Acho que quando você me deixou ficou um vazio, sabe? Aquela coisa meio clichê, mas é a única forma de descrever. É engraçado, porque já faz tanto tempo, e parece que o vazio não diminuiu nada, talvez até tenha aumentado.
Queria que as coisas tivessem sido diferentes. Sei que eu já disse isso mil vezes, mas não superei. Nem sei se vou superar, mas não me importo com isso.
Ainda me sinto culpada por tudo... Acho que a culpa é mesmo minha, mas não há mais nada pra fazer agora...
Hellena completou 13 anos, não sei se você sabe... Ela é linda.
Parece tanto com você... Se não fosse ela, eu não sei o que seria de mim.
Provavelmente eu estaria mais perto de você do que agora, mas acho que é melhor estar longe.
A Julia diz que eu sou louca. Ela não disse com essas palavras, mas você conhece a peça, e sabe o que ela pensaria sobre eu te escrever essa carta.
Imagina só, ela está namorando... Ele é um cara bacana, parece gente boa. Acho que ela é que não é muito honesta com ele... Mas chega uma hora que ou você faz a coisa, ou você some, antes que alguém se machuque.
Acho que aprendemos isso na prática, não foi? Na marra...
Acho que, embora a Julia diga coisas fora de hora ou coisas sem propósito de vez em quando, ela estava bem certa em duas coisas que me disse.
Uma é que eu sou uma covarde. A outra é que o que estou fazendo não tem cabimento.
Não tem mesmo. E eu sou covarde. Meu tempo já passou, mas eu não tenho coragem de me levantar e sair.
Acho que tudo que eu tinha pra te dizer foi dito enquanto estávamos frente a frente.
Então, por aqui vou me despedindo. Para sempre.
A vida continua. Sei que você pensa como eu.
Não sei se vou amar alguém como amei você, mas não quero mais ficar presa ao passado.
Preciso viver.
Sophia.
Ficou olhando o papel por uns bons minutos, leu e releu. Não parecia errado, mas era tão estranho fazer aquilo.
Pegou um envelope na gaveta da mesa e escreveu OLIVER no verso. Dobrou o papel com cuidado e enfiou lá dentro.
Estava feito. Ela sabia que ele podia muito bem estar lendo, ou até já ter lido aquela carta. Um lampejo de arrependimento passou por sua cabeça e desceu às mãos, que quiseram amassar a carta, mas foram paradas por algo que não era bom senso.
Levou a carta ao seu quarto. Havia uma dezena de lugares em que poderia guardar a carta, mas nenhum onde poderia escondê-la de si mesma. Rodou até descobrir que queria mesmo era amassar, queimar, rasgar.
E foi o que fez, amassou, rasgou e depois queimou a carta.
Depois dessa, pegou todas as outras que "mandou" e fez o mesmo ritual de amassar, rasgar e queimar.
Estava liberta.

2 comentários:
Bom texto, eu achei bastante legal...
Eu me identifiquei com alguns trechos da Carta que a Sophia escreveu...
Kd o proximo episodio......fico angustiado em querer saber o que ouve I.i
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